quinta-feira, agosto 31, 2006

O aniversário é meu... mas vou dar um presente pra vocês!!

Est é um conto de uma escritora de SP. Fui apresentado aos textos dela a uns 2 anos... A acho que seria uma boa partilha-los com vocês...
Abraços

O animal dos motéis

Márcia Denser


“Mas sempre acabo em seus braços / do jeito
que você quer...” - Desabafo - Roberto Carlos


Deitamos ouvindo Roberto Carlos, a voz dos motéis, “por que me arrasto a seus pés?”. Porque sexo é isso mesmo. Essa gana de rastejar com Roberto, no coito dos motéis. Ele diz:esse motel já foi bom, e eu olho o banheiro, caixa amplificadora de fibroplast, as toalhas embaladas em sacos plásticos, os lençóis castanhos com ramagens duvidosas entre encardido e vestígios de cor, os três espelhos redondos, montados em curvim (um em frente ao outro, no meio a cama, o terceiro no teto, sobre a cama), claro que para transformar-nos numa espécie de confuso coquetel de siris assados: pernas, braços, carnes vivas, canteiro de patas, antenas, pêlos moventes, espiando de esguelha uma outra hidra em perspectiva no espelho da frente, de trás, de cima, de baixo, devassados, misturados, confundidos, a 850,00 a diária, porque (e então eu sei porque) todos os motéis é sempre o mesmo motel, o animal mitológico, a quimera que se arrasta interminávelmente na madrugada ao som de Roberto Carlos.

Apoiada nos cotovelos, a cabeça dela surge no horizonte do espelho. A brasa do cigarro, no ponto quase central da bola ensombrecida, como o primeiro sol de um universo, sopra a fumaça:

— Você já leu Hemingway?

— O que?

— Perguntei se você já leu...

— É importante? Ele soergue-se ligeiramente.

— Fatos. Parece que ele só se preocupa com os fatos, no princípio. Naquele conto do toureiro, não lembro o título. Começa que o sujeito bate na porta do patrão, quer voltar às corridas, o patrão não está interessado, diz: só nas noturnas, 300 pesos, discutem o salário. Muito seco, direto. De repente, o patrão olha bem na cara do toureiro e pensa: é assim que todos morrem. E pronto. Eis a cabeça do monstro, a cutilada no boca do estômago, Hemingway nos pega despre...

— E o cara? Morre? reprime um bocejo.

— A morte só o rodeia. Toda a tourada. Ele a persegue. Ela o arranha e o abandona. Mas ele volta a provocá-la. Como um cego. Ou um tolo. É inútil. Duas vezes entre os chifres do touro. Debaixo das patas dos cavalos. A espada se parte. Não acerta — o que é muito simples para um veterano — o local exato no dorso do animal, do diâmetro de uma moeda de prata. A morte apenas o maltrata, como e estivesse brincando, como se ele não a merecesse, como...

— Mas ele morre ou o quê?

—Não sei, o picador,

— Como não sabe? Então esse Hemingway é...

— Precisaria ler a estória

— Certo. Você já me contou.

A brasa desaparece no espelho, se apaga. É como uma sina, ela pensa, contemplar esta cabeça com fria ternura ou recorrer mais para trás, para uma piedade distante detonada pelo álcool, pela solidão, aquele sanduíche cinzento de noites de leitura e insônia e cigarros,como uma única noite boreal, amanhecer e crepúsculo, luz intermediária e intermitência de néon, de café, de galeria, de esperar sem mais esperar, suplicar, implorar por aquilo que sequer tem nome. O toureiro não merecia a morte. É como uma sina. Rastejar com Roberto: “você é mais que um problema / é uma loucura qualquer”, porque ele sabe de uma porção de coisas sem saber, coisas que eu ignoro. Lembra a Maga, uma personagem de Cortázar que, por sinal, ignora Hemingway e este, claro, além de vocês e todos, todos nós, amantes e condenados e Roberto.

Um touro espreita no fundo dos olhos dele: duas faíscas cúmplices transmitem a ordem ao dedo áspero que vadiamente começa a percorrer a coxa, queimado cilindro macio de luz negra. O dedo vai subindo, pincelando as penugens invisíveis — há partículas fosforescentes na superfície da pele — o dedo, e então são os dedos, vão se abrindo, agarrando, numa fofa mordida, a região dos pelos, capturando os lábios, separando-os com delicadeza: o indicador resvala pela fresta úmida. Imobiliza-o um instante lá dentro e então o leva à boca. A cabeça está inclinada sobre seu ventre, mas ela sabe que ele sorrí: um garoto mergulhando o pão na panela e experimentando o molho. Olha-a, a mão agora pousada no seio, o tato pegajoso, feito clara de ovo.

— Você complica tudo. As faíscas divertidas, perversas. Como se fosse possível o amor, como se fosse muito fácil, muito simples. Possível. Fácil. Simples. Do diâmetro de uma moeda de prata. Uma fresta úmida. O ponto exato. Amor.

— Nunca estive na Espanha, ou no México. Ela acende outro cigarro.

— Ou aqui. Está precisando de um homem.

— Já pensei nisso. Aliás, não faço outra coisa.

— Pergunto se você já fez algo à respeito.

— Sinceramente...

— Por você mesma. Imagina que eu sou um idiota. Sei o que está pensando. Essa estória de toureiros fodidos e do tal Hemingway. Muito complicado, não acha?

— Então, nada de romance?

— As mulheres não mudem...

— Nem os homens. É bobagem. Penso: sinto-os pulsar aqui dentro, cegos, surdos, solitariamente, me tocando até à loucura, me penetrando até à loucura. Certo, o prazer também é meu, mas duplamente solitário, uma tarefa que cumprimos tão distraidamente, tão alheiamente como um violino que se tocasse a si próprio num dormitório de quartel, tarefa da qual só poderia, só deveria, nascer amor e música, no entanto...

— Roberto Carlos, aponta o alto-falante.

— Não estou falando de fundo musical, e depois isso é outra estória (“por que me arrasto?”).

— Está querendo dizer que eu só me masturbo?

— Que nós.

— Isso. Que nós.

— Também não sente assim?

— Sei lá. Às vezes...

— É isso.

— O que quer? É bom pra mim, bom pra você...

— Exato. Bom-mim, bom-você, um em Guadalupe, outro no Japão, se fodendo por controle remoto.

— Garota engraçada, você. Vamos beber? Fisgou o cardápio na mesinha.

A brasa inflamou-se novamente no espelho: uma erupção solar. Mas este já é um outro capitulo: agora beber, começar a beber e ladeira abaixo.

— Vodca. Quero vodca.

— Pura? O telefone suspenso na pergunta, a expressão surpresa.

— Não. Com gelo.

Pousa o fone no gancho. Fita-a intrigado, ajustando o travesseiro.

O corpo enorme, em potente repouso, não faz parte do rosto. Coça os cabelinhos do peito. Ela está enrodilhada ao pé da cama (como se camas redondas tivessem alguma referência. São como o universo, não há direção, norte, sul, direita, esquerda, em cima, embaixo, esses caras são mesmo diabólicos, Deus é diabólico, ou seremos nós que...)

Ele se inclina, acariciando-lhe as ancas dobradas, avaliando-as no espelho às suas costas, as nádegas projetando aquele invisível biquíni de sol. Afaga-lhe o rosto, os cabelos, hesitando, ganhando tempo, subornando, com medo de falar:

— Bebe sempre vodca pura?

— As bandejas passeiam no pátio repletas de coquetéis de frutas, martinis doces...

— O que há de errado?

— Para as garotas boazinhas.

— E você? Não é? O dedo contorna os lábios: vai me calar, me silenciar com esse beijo, entupir-me com essa língua, porque esses encontros são acidentes vertiginosos cujo resultado é o titã de mil olhos, mil bocas famintas que murmuram te amo, te amo, e que respondem te amo, te amo, zumbindo num cercado de mentiras ciciantes de sons no espelho, dimensão da penumbra da vida, caixa de música abafando um só tema a repetir te amo, te amo, perseguindo o elo de uma cadeia prisioneira que nos abandona assim que sai da nossa boca, e a sua repetição implica na perseguição eterna daquilo que já esteve atrás da boca, do travesseiro. Ao formularmos com os lábios o rolo doce da língua e da saliva, saltamos à frente do tempo e imediatamente já nos sentimos abandonados por esse pássaro fugidio, que se debate te amo, te amo, ato irrefletido de cuspir, separar as coxas e tomar a primeira estocada, recuar, avançar, senti-lo rígido como um cilindro de aço vivo e então capturá-lo, mas, de leve, uns cinco centímetros, não mais, de repente, sugá-lo todo para dentro, frente a frente, de cócoras, como crianças agachadas brincando com bolinhas de gude, hipnotizadas pelo movimento das bolinhas que rolam, evoluem, param, prosseguem — o entrechoque das bolinhas liquidas — nova fisgada, novo recuo de quadris; as bocas navegando nas bocas, no rio das bocas, no mar das bocas, nas cavernas dos dentes e da língua, na correnteza das bocas, gargantas, ventres molhados e, lá embaixo, o borbulhar estourando as margens que recuam, cedem, enquanto ele bombeia, macho e terno, e bate e bate, martela o limite viscoso, implorando para nascer de novo, e combate e se estimula e a maltrata porque ela uiva, sussurra obscenidades — as primeiras palavras que um homem escuta, e as últimas — evoluindo, insuportável, maldita, insuportável, adorável, não é mais prazer, não é mais dor e é o milagre, a vertiginosa erupção, um terremoto visto ao longe e o centro de um furacão, assistir uma catástrofe atômica e, ao mesmo tempo, estar no centro dela, como Deus, como Deus, como Deus.

Depois do violento crepitar frio, o movimento cessa e então voltar a ouvir o vento se lastimando nas marquises dos edifícios, nas estruturas de aço da cidade industrial mais próxima e, não fosse o vento, poder ouvir até a nós mesmos (que é a última coisa que gostaríamos de ouvir na freqüência dos motéis), por isso, nosso ego logrado retorna, monstro rugidor e oceânico, às cavernas interiores, lá se aferrolhando

Lá em cima, no espelho, duas, quatro, seis, oito larvas rotas, libertas do emaranhado.

Termina a cerveja e dá-lhe uma palmada na coxa:

— Vamos (“pensando bem, amanhã eu nem vou trabalhar / e além do mais...”)

— Ainda tem vodca. Ela aponta um dedo preguiçoso para o copo dois terços vazio.

— Fica pra outra vez, já veste a camisa

quarta-feira, agosto 30, 2006

Ark falando de livros...




É um livro de contos sobre uma personagem em varias facetas animalescas. O autor é um biologo, e as situações e termos técnicos utilizados em cada conto faz com que o leitor se rasgue de ri...Ótima opção pra quem esta procurando relaxar.
Esse é ltamente recomendado...
Há e mais uma coisa... resolvi deixar esse Blog pra coisas informais... montei um no multilpy pra postar uns contos e falar sobre RPG...
Quem quizer dê uma passadinha por lá...

http://arklich.multiply.com/

sexta-feira, agosto 18, 2006

a mais nova tattoo



essa foi a ultima... to pensando já no que vai ser a proxima

domingo, agosto 13, 2006




MORALIZA O POETA NOS
OCIDENTES DO SOL A INCONSTÂNCIA
DOS BENS DO MUNDO


Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,
Depois da Luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.

Porém se acaba o Sol, por que nascia?
Se formosa a Luz é, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no Sol, e na Luz, falte a firmeza,
Na formosura não se dê constância,
E na alegria sinta-se tristeza.

Começa o mundo enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância


Gregório de Matos

segunda-feira, julho 17, 2006

Amizade

"do Lat. *amicitate
s. f.,
afeição; amor; boas relações; laço cordial entre duas ou mais entidades; dedicação; benevolência."



Tá que coisa mais melosa, ate parece que hoje em dia isso existe. O que realmente existe é a conveniencia e o interesse. Você só se aproxima de alguem se quizer algo e somente se essa mesma pessoa puder te oferecer o que procuras. Tudo nessa vida está se baseando nisso. eu si q tem pessoas que só se aproximam de mim pra desabafar, ou pra beber, ou pra evitar de pagar a conta de deixar tudo na mão do amigo, e ainda vem com a maior cara de pau dizer "cara eu te amo... você é meu melhor amigo" e quando vc vira de costas na primeira chance vem um pequeno punhal enderaçado as sas costas sendo cravado com vigor e ódio por quem tanto te ama!!!(Engraçado isso né?)
Estou sendo extremista? Ou estou generalizando? Ou estou Amargurado com a vida? Não não estou... poucas pessoas que se aproximama de mim valem a pena o status de amigos o resto não passam de uns parasitas sanguessugas que deviam ser varridos da face da terra... Tá eu sei... Eu tô sendo agressivo... Mas paciencia tem limites, e a minha anda uma linha bem tênue... Eu sou sincero de costumo a dizer na cara e sei que não posso forçar ninguem a ser assim como eu sou... Mas se for dizer algo de mim que me fale na lata mesmo... E não pros outros...
Pelo menos eu ainda estou falando de relações de amizade... Se for relacionar ao problemas amorosos, ia passar a noite inteira escrevendo nesse blog... Ate porque ainda não tive a chance de dizer umas pequenas verdades a minha ex... Mas sinto q esse dia tah bem em breve... Se estou revoltado... Hoje em especial sim, e quem me mnecontrar pelo msn se eu for estupido vá me desculpando... Mas hoje eu to de pavio curto

domingo, julho 16, 2006

Inferno Astral


Frase meio forte pra por como um titulo de um post, mas assim que eu posso denominar minha atual situação de vida. Desistimulo, desanimo, desconcentração e assim vai seguindo o meu autal ritimo de vida. Não nego que em minha cabeça já passou inumeras soluções para sair desse modo, mas infelismente não consigo por nenhuma em prática... A maioria é sem duvidas por incompetencia e grande menoria é por ainda acreditar que tenha algo aqui que me vale a pena continuar vivo. Minha psicologa diz q eu sou um depressivo com tendencias suicidas... Bom pra quem tem o costume em ficar em casa com varios objetos cortantes e cultiva uma relação de zelo a um punhal... Mas quem sabe um dia eu não tenha a competenia ou a coragem pra resolver meus problemas. Agente sempre diz que nossos problemas são maiores que os dos outros... Ainda mais quando essa pessoa tem mania de "arquivar" esses problemas e quando o arquivo começou a ficar cheio demais eles vieram feito uma avalanche e no memlhor momento... Quando estava fragilizado.
Assim sem mais delongas um dos motivos de montar esse blog foi para o auto desabafo... E no moemento que paraem os posts, acho que já sabem né? Não vai haver mais o que desabafar... Proque talvez assim todos os problemas tenham se resolvido...
Só pra não perder o contexto cultural... imagem do Salvador Dali o titulo da pintura é "Purgatório - O Reinado dos Penitenes"

sábado, julho 15, 2006

Ao minuto de vida que se extingue em cada trago...

Em homenagem a minha volta ao fumo e ao meu "alegre" estado de espirito, ai vai um poema de um heterónimo de Fernando Pessoa. Acho que ele pode explicar bem como me sinto.

TABACARIA

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
à parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho genios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordámos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, para o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei que moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheco-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

Álvaro de Campos

domingo, julho 09, 2006

eu ando meio sem paciencia...

Como eu ando meio sem paciencia ai vai uns videos engraçados do jogo World of Warcraft...





esse dos elfos é engraçado... mas esse tambem é... ai vai




THE INTERNET IS FOR PORN!!! eu quaze morro de rir... bem eu vou parando hoje por aqui... a falta do que postar foi horrivel... espero que amanha eu esteja "melhor"

quarta-feira, junho 28, 2006

Uma noite estranha...

“Era um lugar frio e sujo, a musica alta não deixava as pessoas conversarem, as mesas estavam cheia de garrafas e copos e cada pessoa tinha um semblante em especial algumas alegres outras tristes e muitas escamoteando seus sentimentos tentando se misturar em meio ao ambiente. Em passos lentos fui me aproximando do balcão pedi algo forte, que prontamente foi atendido. Fiquei surpreso com o efeito que aquela pequena dose causou no meu organismo, parecia que havia engolido uma pedra em brasa e rapidamente senti meu corpo ficar levemente pesado e minha percepção meio deturpada. Apoiei-me ao balcão de com um movimento firme empurro meu corpo para trás em busca de voltar a seguir meu rumo, só que havia uma pessoa atrás de mim e não consegui desviar e esbarrei nela, pedi desculpas e segui o meu rumo às mesas de sinuca.
Não me recordo do jogo, mas sei que estava perdendo também não seria difícil, pois não acertava nenhuma jogada que tentava executar. Após algumas fichas perdidas, resolvi sair de lá, não sei o motivo ao certo eu não estava me sentindo bem, o ambiente estava me oprimindo... Tentava enxergar o rosto das pessoas e não conseguia discernir nenhuma... Tudo estava ficando turvo... Senti um refluxo vindo e me dirigi a saída do lugar e no caminho uma senhora me para... Dessa eu me lembro muito bem... Cabelos grisalhos, olhos castanhos, um rosto de quem já teve uma vida extremamente bem vivida e uma voz rouca, mas que me transmitia segurança...
Ela me pegou pelo braço e com uma voz imperativa me disse

- Corre... Tem um amigo seu precisando de você lá na praça...

Instintivamente sai meio que trôpego em busca desse amigo, quando o refluxo vem mais forte... E tento conte-lo com as mãos o que foi inútil, assim sujando minhas mãos e o chão a minha frente... A vista melhora um pouco e me escoro e uma parede... Passo uma das mãos na boca me tentando “limpar” e olho as mãos, e acabo tendo uma visão e me deixa apavorado... Era sangue... Eu havia vomitado sangue... Cambaleante tenta ir à praça, quando sinto uma dor aguda em minhas costas a vista escurece... E tombo ao chão...”.

Abro os olhos lentamente e olho ao redor... Estou no meu quarto... Minhas costas ainda doem me levando e vou ate o banheiro... Jogo um pouco de água no rosto... E sigo ate a cozinha, bebo um pouco de água e ela me desce amarga pela garganta... Respiro fundo e penso... “Merda... esses pesadelos tão ficando constantes”.

Desse jeio eu vou acabar tendo um treco...

segunda-feira, junho 26, 2006

o Espaço Negro entre as orelhas


É impressionante a quantidade de assunto diversos que todos “escritores” conseguem manter em um Blog. Pow... eu sou humano e como um cheio de limitações... pra não dizer normal... aqueles standards... cheio de defeitos... e quase nenhuma qualidade.
As vezes queria ser um cara legal ou melhor me expressando um cara com idéias interessantes... Tá eu sei... só nascendo de novo... ou procurando ler... ou me tornando cult ou cool... (eu prefiro voltar a ler me tornar cult ou cool é uma merda, e pelo menos eu desmancho essa maldita pilha de livros que a cada ano sai um e entra três). Bem assim sendo, acho que vou começar agora... quem sabe um pouquinho de humor não me faça dormir melhor... se algum dia alguém se interessa “Voce é uma animal, Viscovitz – Alessandro Boffa” é bem interessante.
Fui...

sexta-feira, junho 02, 2006

Vontade de desabafar


Bem vamos dar inicio. Sei lá o que foi que me deu hoje, só sei que ate tentei dormir, mas não sei o porque de não conseguir. Não ando hj prepcupado com gramática acentuação ou seja lá o que for, eu to aqui pra desabafar. Sei que ninguem lê isso mesmo e por isso não tenho que me preocupar com nada. Nada anda dando certo pra mim e nem estimulo pra seguir com o que estou fazendo (tá tudo lindo né?). Se dizem que tudo ainda pode piorar, quero ver ate onde o sadismo vai, ate porque o masoquista aqui tá cansando e um dia acaba parando... Não sei porque eu coloquei na cabeça pra parar de fumar, quando mais eu presciso de um cigarro não tenho por perto... acho q devo voltar a tentar dormir caso eu consiga ou se quem sabe quando amanhecer o dia vai ser bem melhor pra mim (o que eu posso fazer... a esperança é a ultima que morre... demora mais morre).
Bem... aqui vai a letra da musica que esta embalando meus pensamentos neste exato momento...

Red Water (Christmas Mourning)
Type O Negative

Wake up, it's Christmas mourn
Those loved have long since gone
The stocking are hung but who cares
Preserved for those no longer there
Six feet beneath me sleep

Black lights hang from the tree
Accents of dead holly

Whoa mistletoe
(It's growing cold)
I'm seeing ghost
(I'm drinking old)
Red water
Red water
Red water chase them away

My tables been set for but seven
Just last year I dined with eleven
God damn ye merry gentlemen

Whoa mistletoe
(It's growing cold)
I'm seeing ghosts
(I'm drinking old)
Red water
Red water
Red water chase them away.

quinta-feira, abril 06, 2006

Canto do Ark informa....

A pessoa responsável pelo blog esta completamente apaixonada... e por issonão se respnsabiliza pelos atos da mesma...


Canteiros
Composição: Fagner / sobre poema de Cecília Meireles

Quando penso em você fecho os olhos de saudade

Tenho tido muita coisa, menos a felicidade

Correm os meus dedos longos em versos tristes que invento

Nem aquilo a que me entrego já me traz contentamento

Pode ser até manhã, cedo claro feito dia

Mas nada do que me dizem me faz sentir alegria

Eu só queria ter no mato um gosto de framboesa

Prá correr entre os canteiros e esconder minha tristeza

Que eu ainda sou bem moço prá tanta tristeza

E deixemos de coisa, cuidemos da vida,

Pois se não chega a morte ou coisa parecida

E nos arrasta moço sem ter visto a vida.



Isto vai pra quem eu tenho certeza... que se olhar saberá que está endereçado sem rodeios...
Eu pensei que pudesse levar isto calmamente, mas eu não posso...
Acho que após isso não presciso falar mais nada...

segunda-feira, abril 03, 2006

O Canto do Ark tambem é cultura...

Como ultima tarefa antes de dormir resolvi por mais alguma coisa aqui. Pensei bastante sobre o que postar... Então vou postar uma coisa que eu gosto... A Pintura... Vamos iniciar falando de um pintor barroco chamado Nicolas Poussin...



Nicolas Poussin, pintor francês do período barroco, nasceu perto de Les Andelys, na Normandia, em 1594. Poussin foi contemporâneo de Simon Vouet (1590-1694), que iniciou em Paris a rigorosa tradição da pintura barroca francesa. Da escola de Roma, Poussin é considerado o pintor francês mais importante da escola de Roma.

Ele mudou abruptamente de estilo durante a década de 30, passando a pintar cada vez mais cenas clássicas e mitológicas, em que era dado um crescente relevo a temas arcadianos, ou seja, ligados à lendária região grega da Arcádia. A temática da Arcádia foi frequentemente usada e o seu significado prende-se com a brevidade da vida e com a certeza da morte.







domingo, abril 02, 2006

Poemas

Só pra começar bem... Antes de dormir também, vou inicar isso direito... Um dos meus poetas preferido... Gregório de Matos e Guerra, vulgo "Boca do Inferno"


Buscando a Cristo

A vós correndo vou, braços sagrados,
Nessa cruz sacrossanta descobertos,
Que, para receber-me, estais abertos,
E, por não castigar-me, estais cravados.

A vós, divinos olhos, eclipsados
De tanto sangue e lagrimas abertos,
Pois, para perdoar-me, estais despertos,
E, por não condenar-me, estais fechados,

A vós, pregados pés, por não deixar-me,
A vós, sangue vertido, para ungir-me,
A vós, cabeça baixa, p'ra chamar-me.

A vós, lado patente, quero unir-me,
A vós, cravos preciosos, quero atar-me,
Para ficar unido, atado e firme.

Inicio...

Bem... vamos ao inicio... Ou melhor, reinicio de tudo...
Não sei se tenho tanta paciência pra ficar atualizando isso mas vou tentar faze-lo enquando me lembrar disso. Demorou um pouco até tomar vergonha na cara e retirar as teias de aranhas daqui, espero que em breve esteje 100%.Só posso dizer que tive um motivo (não sei se posso dizer esplendoroso) pra por isso em frente, mas posso afirmar com exatidão que esse motivo é o qual me deixa muito feliz e animado pra seguir em frente, e o melhor de tudo é que não quero nada em troca.
Já tah meio tarde, e acho melhor parar por aqui...

Abraços do Ark